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A mulher que não falava - capítulo oito

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Seu amigo Paulo

Você já parou para pensar na sua vida? Nas pessoas que estão com você? Quanto tempo você as conhece? Pedro e Paulo se conheciam desde o colegial. A amizade dos dois começou como muitas outras amizades começam. Dizem que os opostos se atraem e assim aconteceu com os dois. É claro que tinha muita coisa em comum, mas ao contrário de Pedro, Paulo era mais extrovertido, não tinha vergonha de falar o que pensava. Por esse motivo, foi várias vezes à diretoria por responder mal aos professores. Alguns deles até questionava a amizade dos dois.
- Como é que pode, um tão quieto e estudioso, com amizade com um que não faz a tarefa e fica de conversa paralela.
O que esses professores não sabiam era que a amizade dos dois era tão forte que não importavam essas diferenças e que toda essas relatadas malícias de Paulo fazia bem para Pedro. Pedro se tornou o que foi graças a essa amizade.
Retomando às perguntas iniciais, você ainda lembra de seus amigos? Direta e indiretamente, nossas amizades nos moldam e influenciam no que nos tornamos. As pessoas que passam por nossa vida fazem diferença. Marcam época. Isso é bom, é ótimo poder olhar pra trás e dizer:
- Ah, esse é o Douglas, meu grande amigão da sexta e sétima série!
Essa era a relação entre Pedro e Paulo. A amizade dos dois nunca morreria. Mesmo agora, com a morte de Pedro, eles seriam amigos pela eternidade.
Como os parentes de Pedro moravam em outro país e não foram localizados, Paulo se encarregou de cuidar do velório. Neste dia, apenas ele e sua noiva compareceram à despedida de seu amigo. O salão era grande e o caixão estava no meio. Era escuro e tinha a tampa escorada na parede. O corpo do defunto estava gelado, mas o seu rosto aparentava uma alegria. Paulo se aproximou dele e conversou em pensamentos, enquanto algumas lágrimas caíam no paletó de Pedro.
- Meu amigo, o que você fez? O que você buscava? Encontrou? Por que esse sembrante de felicidade? Por acaso, o mundo da morte é melhor que esse mundo? Depois de tantos anos de amizade, acho que você foi egoísta ao sair em busca de algo e me deixar só. Não foram fáceis os primeiros dias após sua partida. Nem nos despedimos direito. Agora, estou sentindo de novo a dor da partida de alguém que eu amo. Por que, Pedro, por quê?
Sua noiva, Ana, viu que ele não estava bem, então deu um abraço nele e sussurrou:
- Calma, amor, onde quer que ele esteja, agora, ele tem a paz.
Paulo sabia disso, mas estava sofrendo do mesmo jeito. Passou a noite sentado ao lado do seu amigo, recordando os velhos tempos, até que adormeceu. Quando acordou, o sol ainda não tinha se levantado, mas o caixão permanecia ali, aberto, como se ainda quisesse se despedir de alguém, como se estivesse esperando esse alguém. Nesse momento, Paulo se lembrou de Fernanda, recordou que no dia em que ela foi embora, ela tinha entregado um papel contendo o seu novo endereço. Foi correndo para sua casa, pois sua noiva já tinha ido embora antes com o carro. Ao chegar nela, procurou o papel por todos os lados.
- Amor, você sabe onde está minha caixa quem tem coisas antigas minhas?
- Não sei, amor. - Respondeu Ana, acordando com todo o barulho. - Vê se não tá na dispensa de fora.
Ele abriu a porta do fundo e procurou por toda a estante, até que encontrou o papel dentro da caixa. Pegou o carro e partiu para a cidade que não ficava muito distante.
- Talvez meu amigo queira se despedir dela! - Ele pensou.
Chegando a cidade, procurou entre as ruas a que estava escrita no papel, até que encontrou o número da casa. Bateu palma várias vezes e quem atendeu foi um senhor com uma cara não muito boa.
- Senhor, a Fernanda está?
- Quem é você e o que quer com a Fernanda? - Bradou o ancião.
- Senhor, eu fui colega dela na sexta série. Um amigo dela faleceu e eu queria falar com ela.
O homem que aparentava ter seus sessenta anos o deixou entrar e pediu para que ele se sentasse,enquanto  ia chamar a Fernanda. Depois de uns minutos, uma senhora baixinha veio ao encontro de Paulo.
- Você quer falar com a Fernanda?
- Sim, eu gostaria muito.
- Mas é impossível.
- Impossível por quê? Ele não foi chamar ela?
- Foi, mas ela morreu no ano passado.
Aquelas palavras caíram como bomba na cabeça de Paulo. Foi inevitável que algumas lágrimas caíssem de novo. No caminho de volta, ele não conseguia se conformar. Estava começando a se revoltar com o destino. Por que duas pessoas tão jovens tinham que morrer assim, tão de repente? Por que o amor que os dois sentiam nunca pôde se concretizar? Nenhum dos dois nunca disseram um pro outro um "eu te amo". Nunca trocaram carícias, nem planejaram qualquer coisa para o futuro juntos.
Imagem: http://www.teckler.com/pt

Paulo voltou para o velório e tentou lembrar se em algum momento nos últimos momentos de Pedro ele tinha sido feliz. Lembrou que antes de partir, ele disse que as coisas seriam diferentes e que ele finalmente encontraria a felicidade. Mas que felicidade seria essa? A morte? 
Abriu o porta-malas do seu carro e procurou o notebook de Pedro. O hospital tinha entregado os pertences de Pedro a ele, já que não tinha pra quem entregar. Conectou-o à tomada e iniciou o sistema operacional. Procurou nos arquivos alguns escritos que pudessem revelar se Pedro tinha encontrado a tal da felicidade. Encontrou um arquivo de texto, mas não entendia muito do que estava escrito, pois falava de um mundo virtual criado em linguagens de computador. No texto, dizia que esse mundo era perfeito, mas tinha o problema de não ser real. Continuou lendo e lembrou que certa vez, Pedro havia falado do Blender, que era um programa para modelação de ambiente 3D. Abriu este programa e encontrou uma mulher modelada, mas ainda inanimada. Então, continuou lendo o texto e descobriu que Pedro havia criado um outro programa e importado o modelo da mulher para este programa. Dessa forma, ele havia conseguido criar o mundo 3D e dado vida a todas as coisas nele. Então procurou esse programa e quando o conseguiu abrir, se surpreendeu com o que viu: um mundo completamente lindo e vivo. Ficou admirado ao percorrer as montanhas, navegar por mares completamente azuis e se perder nos campos verdejantes. Estava tudo lindo até que ele avista ao longe, pela tela do notebook, uma casa com luzes acesas. Percorreu o mouse pela tela para se aproximar dela. Quando se aproximou, viu uma mulher igual ao do modelo no Blender, só que ela se mexia. Aproximou-se mais e tomou um grande susto. Pedro estava naquela casa, feliz.

Continua...

A mulher que não falava - capítulo avulso

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Este texto tem como objetivo fazer uma reflexão (e análise) do conto A mulher que não falava, escrito por esse ser que vos escreve agora e que assina no final do texto. Antes de prosseguir, admito que este texto é inspirado na obra Diálogos de Salamina (2003), de Javier Cercas e David Trueba. No caso dos dois, Javier Cercas é o autor do romance Soldados de Salamina (2001) e David Trueba é o diretor do filme homônimo (2003). Nesse diálogo, os dois conversam sobre o desenrolar das obras e sobre a adaptação.
No nosso caso, conversaremos sobre o desenrolar do nosso conto que ainda está sendo desenvolvido. Digo no plural - conversaremos - não só por causa das normas, mas também porque faremos um diálogo entre o autor e o narrador. Desse modo, sempre que o turno estiver com um, aparecerá sua identificação precedida da fala.
Autor: Em 2013 participei de uma oficina de roteiro para cinema. Aconteceu em dois sábados, o dia todo, mas passou tão rápido, que não deu pra ver muita coisa. Porém, uma coisa que o palestrante disse me incomodou um pouco. Ele falou que qualquer roteiro que você for escrever deve ter definido início, meio e fim. Dessa forma, o enredo não se perde e fica mais fácil fazer relação com um fato que aconteceu no começo com o final. Isso me incomodou porque ele tem razão. Geralmente, quando escrevo um conto, ou algo assim, eu não tenho nada definido, nem mesmo o nome dos personagens. Às vezes, começo com uma ideia e de repente, tudo muda. O palestrante nos deu uma tarefa muito interessante: devíamos criar um personagem e traçar uma cronologia da sua vida. Deveríamos defini-lo: quem era, como estava, o que fazia, psicológico, tipo físico, etc, mesmo que muita coisa dessas características não fizessem parte da trama. Este exercício tinha o objetivo de conhecermos os personagens para que pudéssemos encaixá-los bem na trama. Por que eu relatei essa experiência? Porque eu estou fazendo totalmente ao contrário nesta estória. Pedro era um total desconhecido para mim quando comecei a escrever sobre ele. Fui conhecendo aos poucos, não só ele, como também à Fernanda, Paulo e Fer. Em relação ao enredo, acontece a mesma coisa, eu não sabia o que escrever no segundo capítulo, nem no terceiro e assim por diante. Sempre que ia escrever um capítulo, eu lia o anterior para tentar segui-lo. Não sei se está dando totalmente certo, mas acho que a trama está seguindo graças ao narrador.
Narrador: Não posso me definir, não sei exatamente como sou, já que o autor não fez nenhuma descrição sobre mim. Isso é normal, já que na maioria das estórias, quando o narrador não é personagem da trama e não fala sobre si, ele não tem muita importância. Serve apenas para narrar. Mas no meu caso, posso dizer que sou um narrador diferente. Posso me comparar ao mundo virtual de Pedro. Ele o criou para ser um abrigo à Fer, mas esse mundo ultrapassou os limites da criação, tendo vida própria. Eu, como narrador, me defino assim. Tenho vida própria, por isso fiquei triste quando a Fernanda morreu.
Autor: Nessa parte, confesso que também fiquei triste. Foi uma sensação estranha, como se alguém realmente tivesse morrido. Neste capítulo, compartilhei todas as reflexões que o narrador apontou. Realmente, pensamos que todas as estórias devem ter um final feliz, mas nem sempre é assim. O final feliz que esperávamos para Fernanda e Pedro era que os dois se reencontrassem e ficassem juntos.
Imagem: http://moveonsmile.blogspot.com.br

Narrador: E agora esse reencontro ficou totalmente impossível, pois Pedro também morreu. Morreu sem saber o que tinha acontecido com Fernanda.
Autor: Bom, mas de alguma forma, ele conseguiu entrar no mundo virtual. O corpo dele morreu, mas a essência está nesse novo mundo. É uma situação impar. Primeiro, porque algo real conseguiu se transpassar para a virtualidade. Segundo, porque tudo indica que talvez ele não saia mais daí, pois, se fosse possível, para qual corpo ele retornaria?
Narrador: E de quem foi a decisão de matar Pedro?
Autor: Não sei, como disse, não tenho nada definido para essa trama. Talvez, a trama por si só, defina os próximos passos. Isso parece uma incompetência minha, pois o autor é aquele que cria e gerencia a estória e o que eu estou dizendo é que não sei como é que tudo vai acabar. É incompetência mesmo!
Narrador: Mas a estória está andando. Ela poderia acabar assim, do jeito que está. Pedro queria trazer a Fer para o seu mundo, mas, ao invés disso, ele foi parar no mundo dela. Isso não é diferente quando tentamos mudar alguém para o nosso jeito. Às vezes, quem nos muda é essa pessoa, daí aprendemos a viver de novo, o que pode ser até melhor do que achávamos. Pedro deverá aprender essa lição. Acho que o erro dele foi se fechar demais. Ele trabalhava, tinha colegas, mas apenas Paulo era seu amigo. Ainda assim, eles não conversavam mais como no colegial. Ele se fechou no seu mundo e no seu projeto de criação do mundo virtual. Falhou ao pensar que poderia trazer à realidade uma criação sua. E se desse certo, se ele conseguisse fazer com que Fer vivesse neste mundo, como seria sua relação com ela? Provavelmente, Fer não gostaria de ficar parada, ela tentaria conhecer todas as coisas daqui. Pedro estava fechado há anos, o mundo não era mais o mesmo. Ele não saberia apresentar isso pra Fer. Dessa forma, as coisas seriam como sempre foi pra ele. Fer iria embora e ele continuaria sendo apenas o amigo de Paulo.
Autor: Eu fico pensando se Pedro escutava o que Paulo falava. Pelo que já vimos, parece que não. Paulo sempre deu alguns conselhos para ele, mas parece que nunca foram atendidos. Paulo vai se casar, será que seu amigo, melhor amigo para ele, sabia disso? Se tinha ideia de quem ele estava namorando, se alguma vez o aconselhou quando ele precisou? Será que Pedro foi um bom amigo? Não temos nada escrito sobre isso, mas é para se pensar.
Narrador: Parece que estamos fazendo um julgamento para o coitado. Ele acabou de morrer e já estamos falando assim dele.
Autor: Pois é, vamos respeitar esse momento. Vamos parar por aqui. Caso seja necessário, faremos outro capítulo avulso mais pra frente. Se você tiver alguma coisa que queira saber, poste um comentário aí. Obrigado pela leitura e, não se esqueça, na quinta agora teremos o oitavo capítulo. Não percam!!


O papel da foto atual

sábado, 22 de fevereiro de 2014
A arte de fotografar já tem bastante tempo de vida. Nos seus primeiros anos, a "máquina fotográfica" tinha o tamanho de um quarto - era praticamente uma caixa preta, o fotógrafo ficava dentro dela e o fotografado chegava a ter que ficar quinze minutos imóvel, enquanto sua figura era "impressa".

Com o tempo, bastante tempo, as coisas mudaram muito. A câmera diminuiu de tamanho, algumas são até capazes de entrar no corpo de uma pessoa. Da revelação de filmes, passamos para as imagens digitais. Mas disso todo mundo já sabe, só demos essa pincelada histórica para mostrar que as facilidades atuais de se tirar uma foto mudou o jeito com que as pessoas utilizam esse recurso.

É claro que ainda tiramos fotos para guardar momentos, para registrar lugares de viagens e lembrar de datas especiais. A diferença está nos outros tipos de uso, mas vamos por partes.

Pensemos numa coisa antes: quem nunca quis ser famoso? Principalmente na infância? Quem nunca quis ser reconhecido por uma coisa que faz? Todos nós temos qualidades que muitas vezes não são vistas por ninguém. Com a popularização da internet, foi possível tornar esses "sonhos" reais. Eu mesmo só estou falando com vocês por causa deste blog. Ok, sei que não sou famoso, mas tenho voz aqui.

Além de voz, muitos ganharam um rosto, principalmente com a expansão das redes sociais. E assim começou uma verdadeira revolução entre o comportamento das pessoas em relação a coisas privadas e públicas. Parece que houve um rompimento de barreiras entre esses dois tropos. Um jantar em família, algo que antes era mantido apenas em família, ganhou a rede. Fotografar e compartilhar  alguns momentos não é errado, mas compartilhar todo o dia que está comendo "x" não é interessante.

Trabalhar o dia inteiro num escritório com os colegas não é mais suficiente, pois deve-se compartilhar esse momento com os quinhentos contatos do Facebook, de  meia em meia hora, todo dia, todo mês, todo o ano.
Imagem: http://www.blogdaemme.com/
Embora o tom das situações expostas aqui pareçam ter um grau de negatividade, não posso afirmar que seja de todo ruim. Esses são os novos papeis da fotografia. Tirar uma foto especificamente para pôr no perfil de uma rede social não difere muito de tirar uma 3x4 pra pôr num documento, a não ser pelo fato de que você pode escolher uma melhorzinha. Caras e bocas, bicos e seios, aba retas e óculos. Você sabe do que estou falando.

Para finalizar o texto, que já tá ficando maior do que eu queria e fugindo da  ideia inicial que eu nem lembro mais qual era, deixo uma dica: fotografe-se, você é livre pra isso, tire quantas fotos quiser e compartilhe todas que achar legais. Mas, pense nos teus contatos, e principalmente, vigie o que deve ficar só entre você e quem tiver na foto.